quarta-feira, 18 de maio de 2011

Microcontos: A Pecinha

Era uma pecinha de fim de ano, e todos os pais ansiavam as falas dos seus filhos. Era uma fábula fofinha, e Flavinho, uma abelhinha, começou a recitar um texto de Bakunin.

Leia esse e outros microcontos em http://twitter.com/#!/microntos, ou siga-me em @microntos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Prédio em Chamas

O prédio ardia em chamas. As pessoas olhavam, assustadas, ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido. Não houve choque, explosão, nada. Há um minuto o prédio estava intacto, e há dois minutos o prédio estava em chamas.
João Carlos há muito deixara o seu cachorro quente cair no chão, embora a sua mão ainda segurasse o vazio. Seria possível?! No seu primeiro dia trabalhando num escritório do Edifício Roriz..."Foda-se o emprego, merda, eu escapei, estou vivo, mas e as pessoas?"
Pessoas histéricas saíam correndo de dentro do prédio como formigas de um formigueiro em chamas (tochas acesas gritantes). Era a visão do inferno catequético bem ali, plantado na esquina da Rua B com a Rua D.
Sirenes apocalípticas anunciavam a chegada dos bombeiros e da polícia. Os bombeiros cobriam as pessoas em chamas com mantas, enquanto a multidão se avolumava em torno do caos. OS gritos não cessavam, e uma saraivada de gente despencava das vidraças do prédio, vindo espatifar-se no asfalto. Uma dessas saraivas humanas veio cair aos pés de João Carlos, sobre o cachorro quente. Ele recuou, em pânico. O corpo crepitava e sua pele borbulhava e enrugava-se. O cheiro de carne tostada era repugnante. Mas o rosto...o rosto estava incrivelmente intacto, embora puído.

João Calos desmaiou. Não porque um prédio inteiro tinha entrado em combustão instantânea em questão de segundos, mas por causa daquele rosto no chão, o rosto puído e contorcido que lhe fitou lacrimejante, e cujo espanto estampado antes do último suspiro espelhou-se no homem em pé, antes de desmaiar.. Espelhou-se não somente por semelhança de expressão, mas porque eram cornucópias um do outro.

O soldado Ulysses Costa Mendes teria uma boa história para contar, e uma grande pulga atrás da orelha, caso o corpo colado ao do rapaz desmaiado não estivesse já completamente em chamas, devido a um outro corpo que viera tombar próximo a ele. Para o bem da sua própria sanidade, o soldado Costa Mendes só encontrou um João Carlos Almeida Júnior.
Quanto a este último, teria a sanidade resguardada por médicos gabaritados que o convenceriam de que "a sua visão de si mesmo ardendo não passou de um delírio, uma projeção decorrente da proximidade da morte."

Quanto a um prédio de dez andares que entra em combustão instantânea, os mecanismos geradores de discursos seriam hábeis em convencer a população de qualquer coisa. Afinal, eles vinham há anos convencendo essa mesma população de que, por direito divino, um punhado de gente poderia escravizá-la, condenando-a à mais extrema insalubridade. Não, não seria um caso desses que os deixaria seriamente preocupados. Nada de que um informe extraordinário do plantão jornalístico não desse conta. As vinhetas todos já conhecem. E poucos são os que, ao toque dessas trombetas alarmantes, não correm loucos para a frente da TV mais próxima. Ávidos de morte.

sábado, 12 de março de 2011

Sensacionismo de Fogo Fátuo

às vezes me sinto como um robô a óleo diesel
que sorveu cinco litros de gasolina,

(lunático
extático
neurótico)

combalido no embate,
debatendo-se embebido em sangue de filme B
deixando minha última assinatura numa mancha que cresce
no paredão enquanto caio aos poucos atritando-me ao concreto
olhando fixo para os executores que já fumam e conversam.

a fumaça do escapamento está ficando mais e mais suja,
e eu mastigo meus próprios parafusos soltos
enquanto contemplo o lento expandir-se da ferrugem

(uma parede de recifes afiados que queimam a carne
como a beleza de uma rosa viva, ou uma nascente de lama
numa planície de pedra.)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Visitante



Um velho xamã
Adentrou o meu quarto.
Eram duas da madrugada,
E o vinho já era passado.

Após uma queda de bêbado,
Aquilo me pareceu ilusão,
Mas o velho índio me tocou,
E tudo então tornou-se luz.

Eu não morri
(aqui estou, escrevendo)
Mas o velho xamã é quem,
De algum lugar escondido em mim,
Dirige a minha mão.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A H.P. Lovecraft

Olhei para o céu,
e vi corpos humanos
carecas e nus.
O seu sangue
enchia os copos dos banquetes,
e lubrificava as engrenagens
das máquinas,
e servia de calda
ao sorvete da criança,
e suas gotas no mar
eram ovos de peixes vermelhos,
e hordas de demônios marinhos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Contos In Versos: O Veneno

Ricardo sorvia todo dia
Uma dose do Veneno,
Que o matava lentamente,
E em um ano o exterminaria.
Por que tomava? Não sabia,
Sua dama também não,
Mas tomava, também ela,
E seu Flavinho, ano que vem,
começaria.

***

"A Virtude", como chamavam a bebida,
Pertencia ao Supremo De Cada Um,
E o deles era Carlos:
Homem forte, rosado, robusto,
e sobretudo risonho.

***

Um dia, meio do ano,
Organizados, embandeirados em bandos,
Um grupo seduziu
Ricardo e família.
O plano engenhoso o empolgou
E fez arder seu coração:
Matar todos os Supremos de Cada Um,
E roubar o "Remédio",
Que guardavam no armário da cozinha.

***

Não me delongo no processo,
Pois já fisga-me o sono
E escasseia-me o vinho.
Mas o fato é que fizeram,
Cumpriram o programa:
Deram cabo dos chefes,
E roubaram os venenos.

***

Mas ao fim e ao cabo,
Algo aconteceu de interessante:
Todos empossados do Veneno
Decidiram continuar tomando-o.
Todos, menos Ricardo,
e família,
Que a contragosto dos Líderes do levante,
Estourou a garrafa malsã
Na cabeça do adormecido Supremo,
E ateou fogo na sua casa,
Com ele, veneno, e tudo

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Os meios-homens e o corpo da Serpente

o corredor era estreito,
e só deixava passar meio homem.
mas a outra metade, a sem cérebro,
andava com rebeldia e erraticidade,
era difícil domá-la à distância.
haviam sete meios-homens na entrada ,
e doze jaziam, inertes, na outra extremidade.
o corredor era uma serpente,
e à esquerda do seu coração um demônio dormia
de olhos abertos, em pleno sammadhi.
da sua boca minava um filete de saliva,
e quem o beijasse com furor adquiria um corpo de centauro,
e ossos de fogo.
haviam sete metades inferiores de homem na entrada do corredor-serpente
e doze jaziam, inertes, no outro extremo,
mas um relinchar de centauro perpassou os átomos,
e todas as metades de homem bateram em debandada,
com asas de cisne.

RAMMED BLACKWOLF