segunda-feira, 11 de julho de 2011

Saída de Emergência

Marcos chegou em casa às dez e meia da noite. Mais um dia de busca por emprego. Mais uma entrevista infrutífera. Mais uma promessa de “estaremos entrando em contato caso surja uma vaga”. Desde que concluíra, a muito custo, o ensino médio, a sua vida vem sendo uma Odisséia de sub-empregos, o que não raro o fazia sentir-se sub-humano. Ele nunca soube o que é um emprego seguro, e um mestre de obras para ele equivalia a um Escolhido dos Deuses.
Nada de comida nos armários enferrujados do quarto-cozinha quentíssimo e mal pintado. Na geladeira, só um restinho de feijão e uma colher de sopa de arroz, além de um ovo, o último. Que faria no dia seguinte? Se ainda fosse um dos queridinhos da família, poderia pedir um dinheiro emprestado, mas, ainda que conseguisse o empréstimo, como pagaria? E quando esgotasse o dinheiro emprestado, o que faria? Pediria mais e mais e mais e mais? Ora, para tal prática há um nome preciso no léxico da língua portuguesa: mendicância. E essa palavra não parava de ecoar na mente de Marcos, que sob o chuveiro, agachado, lembrava de todos os mendigos que vira naquele dia. Mendigos nas calçadas, mendigos nos ônibus, alguns necessitados de alimento, outros já presas do crack...
Saiu do banho. Se enxugou com uma toalha esburacada. Acendeu a única boca que funcionava no fogão velho, e colocou sobre ela a única frigideira que possuía, e que já estava totalmente amassada e sem cabo. Colocou um filete de óleo de soja, e quando este estava suficientemente aquecido, estalou o derradeiro ovo. O mal-cheiro que escendeu da frigideira e a coloração escura do ovo fizeram Marcos sentir-se o mais desafortunado dos homens. O ovo, o último, estava estragado.
Essa noite só haveria uma porção de feijão velho e uma colher de sopa de arroz endurecido. Depois, dormiria, para não arriscar-se a sentir fome novamente. No outro dia iria de estabelecimento em estabelecimento do seu próprio bairro em busca de qualquer serviço pelo qual alguém estivesse disposto a pagar. Tentaria também oferecer-se para capinar quintais, e procuraria algum pedreiro que aceitasse ajudante, mesmo sabendo que não tinha a menor qualificação para isso.
Mas, supondo-se que Marcos conseguisse alguma obra para servir como ajudante, e quando a obra acabasse? Haveriam tantas obras assim para mantê-lo alimentado por um ano? A mesma indagação se aplica à capinação de quintais.
Precisava de um emprego, rápido. Mas aos quarenta anos nenhum call Center o aceitava, nenhum Buffet, nenhum restaurante, nada! Estava desempregado, sem qualificação, sem perspectiva, e quando olhava para o seu futuro só via três opções: a mendicância, o crime e o suicídio.
Marcos não tinha o menor talento para o crime.
Sentou na cama. Olhou para a sua pequena biblioteca. Velhos companheiros: Lorca, Hemmingway, Kafka..., e que diferença faz agora? Ganharia uma bolsa do governo por entender Wittgenstein? Por ter lido e relido “Os Irmãos Karamazov”? haveria uma vaga de professor de literatura russa nas escolas públicas esperando por ele? Não, ele não tinha os canudos, não tinha os passaportes, estava impedido de voar por não atender às exigências burocráticas, como na música de Raul Seixas.
Quando criança sua brincadeira predileta era de professor. Aos 14, sonhava em lecionar filosofia, e incitar jovens a adotarem posturas mais críticas, poéticas e combativas.
Pensou nos seus sonhos de moleque, pensou nos espancamentos sádicos ministrados por seu pai. Pensou na sua mãe atirando-se de um prédio com a cabeça encharcada de tarjas-pretas, um dia depois da pior surra da sua curta vida, também aplicada pelo carrasco oficial da casa, o pater famílias, como dizia Marcos nos seus poemas. Finalmente chorou, amargamente, com esgares lancinantes que assustariam os vizinhos, se estes não estivessem vidrados no último capítulo da novela.
Correu para a cozinha. Pegou o álcool.
Encharcou os livros na estante, riscou um fósforo, ateou fogo, e deitou-se na cama em posição fetal. Em poucos minutos toda a casa ardia em chamas. Os vizinhos da pequena vila onde morava chamaram os bombeiros, mas estes chegaram tarde demais. Não para salvar a casa, mas para salvar o homem que jazia agora irreconhecível, carbonizado, assemelhando-se a uma semente de feijão preto fumegante. O cheiro da carne humana tostada era horripilante e nauseabundo.
Os parentes de Marcos chegaram, logo após os bombeiros, e todos chegaram logo após o fim da novela. A mãe de marcos chorava de verdade, embora tarde. Outros pareciam chorar, mas na verdade tinham os olhos irritados pela fumaça. Outros ainda choravam mais verdadeiramente que a mãe de Marcos, eram os donos do imóvel. Pancho, o gatinho preto de Marcos e sua única companhia, chegou, entrou na casa, olhou tristemente para o corpo do dono e fugiu, para nunca mais ser visto.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Microcontos: A Pecinha

Era uma pecinha de fim de ano, e todos os pais ansiavam as falas dos seus filhos. Era uma fábula fofinha, e Flavinho, uma abelhinha, começou a recitar um texto de Bakunin.

Leia esse e outros microcontos em http://twitter.com/#!/microntos, ou siga-me em @microntos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Prédio em Chamas

O prédio ardia em chamas. As pessoas olhavam, assustadas, ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido. Não houve choque, explosão, nada. Há um minuto o prédio estava intacto, e há dois minutos o prédio estava em chamas.
João Carlos há muito deixara o seu cachorro quente cair no chão, embora a sua mão ainda segurasse o vazio. Seria possível?! No seu primeiro dia trabalhando num escritório do Edifício Roriz..."Foda-se o emprego, merda, eu escapei, estou vivo, mas e as pessoas?"
Pessoas histéricas saíam correndo de dentro do prédio como formigas de um formigueiro em chamas (tochas acesas gritantes). Era a visão do inferno catequético bem ali, plantado na esquina da Rua B com a Rua D.
Sirenes apocalípticas anunciavam a chegada dos bombeiros e da polícia. Os bombeiros cobriam as pessoas em chamas com mantas, enquanto a multidão se avolumava em torno do caos. OS gritos não cessavam, e uma saraivada de gente despencava das vidraças do prédio, vindo espatifar-se no asfalto. Uma dessas saraivas humanas veio cair aos pés de João Carlos, sobre o cachorro quente. Ele recuou, em pânico. O corpo crepitava e sua pele borbulhava e enrugava-se. O cheiro de carne tostada era repugnante. Mas o rosto...o rosto estava incrivelmente intacto, embora puído.

João Calos desmaiou. Não porque um prédio inteiro tinha entrado em combustão instantânea em questão de segundos, mas por causa daquele rosto no chão, o rosto puído e contorcido que lhe fitou lacrimejante, e cujo espanto estampado antes do último suspiro espelhou-se no homem em pé, antes de desmaiar.. Espelhou-se não somente por semelhança de expressão, mas porque eram cornucópias um do outro.

O soldado Ulysses Costa Mendes teria uma boa história para contar, e uma grande pulga atrás da orelha, caso o corpo colado ao do rapaz desmaiado não estivesse já completamente em chamas, devido a um outro corpo que viera tombar próximo a ele. Para o bem da sua própria sanidade, o soldado Costa Mendes só encontrou um João Carlos Almeida Júnior.
Quanto a este último, teria a sanidade resguardada por médicos gabaritados que o convenceriam de que "a sua visão de si mesmo ardendo não passou de um delírio, uma projeção decorrente da proximidade da morte."

Quanto a um prédio de dez andares que entra em combustão instantânea, os mecanismos geradores de discursos seriam hábeis em convencer a população de qualquer coisa. Afinal, eles vinham há anos convencendo essa mesma população de que, por direito divino, um punhado de gente poderia escravizá-la, condenando-a à mais extrema insalubridade. Não, não seria um caso desses que os deixaria seriamente preocupados. Nada de que um informe extraordinário do plantão jornalístico não desse conta. As vinhetas todos já conhecem. E poucos são os que, ao toque dessas trombetas alarmantes, não correm loucos para a frente da TV mais próxima. Ávidos de morte.

sábado, 12 de março de 2011

Sensacionismo de Fogo Fátuo

às vezes me sinto como um robô a óleo diesel
que sorveu cinco litros de gasolina,

(lunático
extático
neurótico)

combalido no embate,
debatendo-se embebido em sangue de filme B
deixando minha última assinatura numa mancha que cresce
no paredão enquanto caio aos poucos atritando-me ao concreto
olhando fixo para os executores que já fumam e conversam.

a fumaça do escapamento está ficando mais e mais suja,
e eu mastigo meus próprios parafusos soltos
enquanto contemplo o lento expandir-se da ferrugem

(uma parede de recifes afiados que queimam a carne
como a beleza de uma rosa viva, ou uma nascente de lama
numa planície de pedra.)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Visitante



Um velho xamã
Adentrou o meu quarto.
Eram duas da madrugada,
E o vinho já era passado.

Após uma queda de bêbado,
Aquilo me pareceu ilusão,
Mas o velho índio me tocou,
E tudo então tornou-se luz.

Eu não morri
(aqui estou, escrevendo)
Mas o velho xamã é quem,
De algum lugar escondido em mim,
Dirige a minha mão.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A H.P. Lovecraft

Olhei para o céu,
e vi corpos humanos
carecas e nus.
O seu sangue
enchia os copos dos banquetes,
e lubrificava as engrenagens
das máquinas,
e servia de calda
ao sorvete da criança,
e suas gotas no mar
eram ovos de peixes vermelhos,
e hordas de demônios marinhos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Contos In Versos: O Veneno

Ricardo sorvia todo dia
Uma dose do Veneno,
Que o matava lentamente,
E em um ano o exterminaria.
Por que tomava? Não sabia,
Sua dama também não,
Mas tomava, também ela,
E seu Flavinho, ano que vem,
começaria.

***

"A Virtude", como chamavam a bebida,
Pertencia ao Supremo De Cada Um,
E o deles era Carlos:
Homem forte, rosado, robusto,
e sobretudo risonho.

***

Um dia, meio do ano,
Organizados, embandeirados em bandos,
Um grupo seduziu
Ricardo e família.
O plano engenhoso o empolgou
E fez arder seu coração:
Matar todos os Supremos de Cada Um,
E roubar o "Remédio",
Que guardavam no armário da cozinha.

***

Não me delongo no processo,
Pois já fisga-me o sono
E escasseia-me o vinho.
Mas o fato é que fizeram,
Cumpriram o programa:
Deram cabo dos chefes,
E roubaram os venenos.

***

Mas ao fim e ao cabo,
Algo aconteceu de interessante:
Todos empossados do Veneno
Decidiram continuar tomando-o.
Todos, menos Ricardo,
e família,
Que a contragosto dos Líderes do levante,
Estourou a garrafa malsã
Na cabeça do adormecido Supremo,
E ateou fogo na sua casa,
Com ele, veneno, e tudo